Entre páginas #4 | Capitu - A audaciosa mulher do século XIX

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"Capitu, isto é, uma criatura mui particular, mais mulher do que eu era homem." (Machado de Assis)


Já li Dom Casmurro seis vezes. Duas a pedido de professores e quatro por vontade própria. Em nenhuma das seis leituras me ocorreu duvidar do amor que a personagem mais enigmática da literatura brasileira, quiçá mundial, sentia por Bentinho. Ao contrário de Macabéa, Capitu sabia viver. Sabia sonhar, duvidar, questionar, discordar,  amar, sabia ser. Capitu sim, é que era mulher de verdade. E por ter ousado ser ela mesma, e não um conjunto de regras pré- estabelecidas pela sociedade, foi julgada e seu modo singular de ver a vida foi estereotipado como olhar de cigana oblíqua e dissimulada e, mesmo sem nada de concreto que justifique o rótulo, ainda hoje carrega o estigma de traidora.

"Capitu era também mais curiosa. As curiosidades de Capitu dão para um Capítulo. Eram de várias espécies, explicáveis e inexplicáveis, assim úteis como inúteis, umas graves, outras frívolas; gostava de saber tudo." (Machado de Assis)

       No trecho escrito por LEILA WANDERLÉIA  BONETTI FARIAS em sua tese de mestrado intitulada A AUDÁCIA DESSA MULHER: ANA MARIA MACHADO E A SUBVERSÃO DO CÂNONE NA  REESCRITA DE CAPITU -  MARINGÁ — PR 2007, fica evidente que, assim como Capitu, muitas outras protagonistas da literatura ou da vida real, são abafadas por vozes masculinas, que teimam em não ouvi-las, ou pior, distorcem suas realidades, minimizando, desse modo,  seus gritos e apelos.

"No romance  A audácia dessa mulher, de Ana Maria Machado, a autora homenageia e questiona a obra de Machado de Assis, aproveitando-se de fios deixados soltos na  trama do autor para construir um diálogo revelador com  Dom  Casmurro. (...)  O  que se vê na análise da forma como a mulher é representada em  ambos os livros, é o contraste entre a Capitu de Machado de Assis, silenciada,  e a Capitu  revisitada por Ana Maria Machado, personagem com poder de narrar a própria  história, ou seja, de construir (ou reconstruir) a própria identidade".

Dessa forma, questiono-me se, caso essa história tivesse sido narrada pela própria Capitu, ainda teríamos a mesma percepção sobre ela. Se essa mulher audaciosa do século  XIX tivesse tido voz, de fato, protagonizando suas cenas, será que ao invés de julgá-la traidora não teríamos, por exemplo, nos surpreendido, compadecido e indignado com uma denúncia de estupro vinda de um homem acima de qualquer suspeita, Escobar, o melhor amigo de seu marido Bentinho? Se em pleno século XXI,  mulheres ainda não se sentem à vontade para denunciar esse tipo de abuso, por serem humilhadas e constrangidas com interpretações onde ainda não são vistas como vitmas e sim como culpadas, imagine Capitu em sua época.

Colling (2004) trata do assunto ao dizer que os historiadores e críticos literários assumiram o papel de porta-vozes das mulheres. Descrevendo-as e falando por  elas, ocultaram-nas como sujeitos, tornando-as invisíveis.

Sabendo-se que uma das funções primordiais da literatura é transformação social, é preciso revisitar o feminino nas obras literárias e averiguar o quanto de influência masculina ofuscou o brilho de nossas protagonistas. Contudo, de nada adianta um texto, onde Capitu possa narrar sua visão dos fatos, se isso não vier atrelado a um despertar de consciência com quebra de paradigmas e desconstrução de discursos. Assim, o foco não recairá apenas na dúvida a respeito da traição, mas na construção de um contexto que possibilite conhecer essa personagem em suas outras facetas de mulher pobre que ascendeu socialmente, casou-se, tornou-se mãe e não cometeu alienação parental, enfrentando, com dignidade, um divórcio. Reconhecê-la em sua totalidade, aceitando sua sensualidade sem enxergá-la sob o prisma machista da sedutora promíscua, já é um ótimo começo para solidificar, não só entre autores e leitores, mas também entre os críticos literários o atual papel da mulher na literatura contemporânea.

"Capitu, apesar daqueles olhos que o diabo lhe deu... Você já reparou nos olhos dela? São assim de cigana oblíqua e dissimulada. Pois apesar deles, poderia passar, se não fosse a vaidade e a adulação. Oh! a adulação!" (Machado de Assis)

---SOBRE A ALCIMARE DALBONE---

Alcimare Dalbone nasceu em 18 de setembro de 1980, em Volta Redonda, RJ, onde ainda reside. Cursou Letras pela UGB, graduando-se em 2001. Atualmente leciona Português e Inglês para as turmas de ensino médio na rede estadual do Rio de Janeiro. Sua poesia Pontos e Partes foi publicada na antologia Trilha de Lótus pela Editora Andross, e foi indicada ao Prêmio Strix de melhor poesia. Pela editora Villa-Lobos lançou o conto de amor "A decisão" na antologia Um céu e estrelas. Pela Young Editorial, participou de Horror a Vapor, uma antologia de Halloween, com o conto Plataforma 90, e teve seu primeiro romance, A Pedra Lunar, relançado em setembro de 2016, na Bienal do Livro de São Paulo.

Contato: maredalbone@hotmail.com

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