Entre Páginas #3 | Dez filmes sobre o que é SER ESCRITOR

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Sempre quis ser escritor, isso não quer dizer que em minha vida sempre tive a intenção de ser um autor de uma obra publicada. Essas eu aprendi com o tempo serem coisas distintas. Esse é o meu primeiro artigo e quis causar uma boa impressão. Pensei no que queria falar e cheguei a conclusão que queria de alguma maneira desmistificar alguns conceitos preestabelecidos sobre a atividade de escritor/autor de obras literárias.

Para isso, no entanto, quis realmente me aprofundar sobre o assunto. Ensinar algo de verdade. Sabe como é… gasta-se muito tempo escrevendo um texto desses e um pouco lendo também para isso não servir para nada. Então vou contar uma linda história sobre a minha relação com a escrita através das minhas experiências com obras cinematográficas que contam a vida de outros escritores. Sejam eles personalidades reais ou fictícias. Então presta bem a atenção tá? Isso aqui vai ser uma bagagem que provavelmente você, futuro autor levará por toda a sua atormenta existência.

Sempre amei filmes que contavam histórias de personalidades atormentadas, dentro disso sempre tive uma profunda identificação com personagens dramáticos. Personagens solitários, melancólicos, inundados em suas angústias e questionamentos. Não tem nada de mais, mas se você não tem isso consigo, provavelmente você não é um autor e sim um escritor. Eu fui uma criança com depressão profunda então estava no time dos atormentados desde sempre, por isso entendo bem a diferença. Sabe quando você não se sente à vontade num lugar e começa a se imaginar em outro, vivendo outra vida? Pois é... é bem por aí que a coisa começa, mas vamos parar de enrolar e começar essa viagem. Hoje serei o seu guia nessa jornada que pode demorar uma vida, mas acredite, não acaba depois que você se vai.

Assim posso dizer que a experiência de um autor não cabe em palavras, mas se adéqua muito bem na dramaturgia. Assim sendo escolhi 10 filmes do gênero que de alguma maneira simbolizam os aspectos que constituem a vida de um autor.

1) AS VANTAGENS DE SER INVISÍVEL (2012)

Esse filme cult adolescente retrata bem a ideia do autor como uma mente atormentada, ainda pouco experiente com a vida, mas que acredita já ter muitas coisas a dizer. Essa é sempre a premissa de todo autor. É sempre a bendita sensação de crer ter algo a dizer, mesmo quando na vida real você não saiba nem dizer um oi àquela pessoa que você gosta. A não ser que você seja um youtuber famoso que decidiu falar sobre alguma coisa, você provavelmente teve a mesma sensação confusa de encontro e perda consigo mesmo quando você escreve uma história que não é necessariamente a sua vida, mas que está diretamente ligada a ela. Esse é o início de tudo. E todas as primeiras sensações de um jovem escritor estão neste filme.

2) MEU PÉ ESQUERDO (1989)

Esse filme, com certeza, de todos é o melhor e coincidentemente foi de todos o primeiro que eu assisti numa madrugada de corujão quando eu ainda era uma criança que chupava chupeta. Meu pé esquerdo é uma base sólida na minha vida, não só porque fala de um escritor, mas também me mostrou desde pequeno que mesmo que a vida não me oferecesse as mesmas condições que outras pessoas eu ainda poderia ser quem eu quisesse ser, e não quem os outros me obrigariam a ser. Essa é uma história que fala do mais tortuoso percurso do escritor. Quando ele deixa de ser alguém que rabisca histórias criadas em sua cabeça para ser alguém que de fato deixa algo para o mundo. Quando suas histórias representam sentimentos comuns a todos. E é esse filme que na minha opinião me deu anos depois a força para encarar esse grande desafio que é o mercado literário brasileiro.


3) SHAKESPEARE APAIXONADO (1998)

Esse filme é ruim na verdade, mas ele cai na problemática do final dos anos 90 de quando até o que era ruim ainda era muito bom. É só você pensar que Titanic foi feito um ano antes dele e Matrix um ano depois. O filme conta de maneira muito divertida a atormentada fase de bloqueio criativo do maior dos maiores. Vale lembrar que quando assisti esse filme eu nem sonhava em ser um escritor, mas esse filme me conquistou, mesmo eu sendo um garoto de 11 anos que só curtia desenho animado e videogame. Anos depois quando tive o meu primeiro interesse romântico comecei a escrever e esse filme fala sobre essas coisas que muitas vezes não sabemos lidar, mas que temos que externar de alguma maneira para sobreviver a isso tudo. As vezes não acontece nada de mais, já em outras, alguém pode escrever Romeu & Julieta.

4) O JULGAMENTO DO DIABO (2007)

Apesar de ser um filme já dos anos 2000 essa divertidíssima comédia ainda tem muito dos anos 90, o que torna o tema tão gostoso de se assistir, porém, as questões abordadas nele são sérias tendo em vista a reflexão da relação sucesso de venda x livro de qualidade. Essa é uma questão que sempre assombrará todo autor. Afinal, meu livro é realmente bom? Será se aquele livro de sucesso é realmente melhor que o meu? Aquela crítica foi justa? E o que é melhor? Ser considerado um péssimo autor com sucesso, ou escrever obras belíssimas e não ter reconhecimento? Quando assisti esse filme eu ainda não tinha escrito Decrépitos, mas foi justamente ele que direcionou todo o meu pensamento sobre como eu deveria refletir a minha carreira anos depois.


5) A SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS (1989)

Sim gente, eu já sou um senhor de 30 anos, então já vi algumas coisas por aí. Esse filme brilhante não é só especial na minha vida como um filme, mas também como a própria descoberta da literatura na minha vida. Eram meados de 2002 e eu estava no primeiro ano da escola. Minha professora de literatura Regina, que foi fundamental na minha construção de ser humano pôs esse filme em sala de aula para assistirmos. Eu como adolescente que odiava a escola até então não me encantara pela leitura. Ia para a livraria porque lá era silencioso, mas não me atraiam muito mais coisas do que olhar as revistas de carro. Foi nesse filme que percebi o quanto a literatura poderia ser subversiva, e uma arma para lutar contra tudo o que me incomodava. Foi nesta época que comecei a desistir de cursar arquitetura para pensar na comunicação social como uma saída para expressar o que sentia. Esse filme fala sobre o que somos, sobre nossos laços e também sobre como é bom ter alguém que goste de falar de livros com você.

6) LOUCA OBSESSÃO (1990)

Nem tudo que reluz é ouro não é verdade? Esse filme que ao mesmo tempo consegue ser engraçado    e bastante macabro mostra todo o possível lado negativo (e até mortal) de se ter um grande sucesso literário. Se em O julgamento do diabo a questão principal era se valia tudo pela fama, em Louca obsessão a questão é o que a fama em si pode trazer. Existe gente muito maluca no mundo. Acreditem…

7) MOULIN ROUGE (2001)

Esse filme é bom de todas as formas e de todos os ângulos. Tudo funciona bem ali. Até a história surreal de um amor impossível entre um escritor e uma prostituta. O que mais me encanta e (assusta ao mesmo tempo) é a visão da atividade de escritor ser exibida como um ato de vagabundagem. Quem não se identifica com isso? Nesse filme fica mais uma vez clara a diferença entre um escritor e um autor. E eu senti isso algumas vezes na pele.


8) DESEJO E REPARAÇÃO (2008)

Esse filme bem tristinho é um daqueles que mostra o lado meio obscuro da mente do escritor. Uma mente fértil as vezes faz algumas besteiras. Antes de ser escritor eu adorava inventar histórias, elas eram muito absurdas e eu tinha a certeza que as pessoas entendiam que eram causos, mas acho que pela riqueza dos detalhes muitas vezes as coisas ficavam fora de controle e eu tinha que me explicar. Pois bem... Esse filme fala sobre uma grande besteira que uma futura escritora faz. Aproveitando o embalo; cuidado com o que você posta nas redes sociais, porém isso é assunto para uma próxima...

9) MEIA-NOITE EM PARIS (2011)

Fala sério! Você sabia que esse filme estaria nessa lista. Juro que tentei fugir dos clichês e até por isso alguns filmes mais badaladinhos não estiveram nesta lista, mas para mim não é o filme em si que importa nessa postagem, mas sim o que ele me ensinou ao longo desses anos, e essa obra de arte com certeza, é uma grande celebração da escrita. É maravilhoso ver Gil Pender (Owen Wilson) viajando por essa cidade que vive em nosso imaginário quando nos vemos com toda a pompa de um autor reconhecido conversando com outros intelectuais. Os dilemas de Gil também são muito similares aos de qualquer mente atormentada que escreve. Nada de novo para Woody Allen que tem em sua carreira, outros filmes que falam especificamente de escritores. A verdade é que é muito charmoso ser escritor, mas que as vezes as coisas não aconteçam como nós imaginamos. No fim, todos sabem o quanto difícil é escrever uma história.

10) ANTES DO PÔR DO SOL (2004)

A verdade é que deixei o melhor para o final. Não importa o que aconteça, eu sempre volto para esse filme brilhante, fenomenal, sem igual. Essa que é uma continuação de Antes do Amanhecer, e o melhor de tudo é que é melhor não assistir nem o primeiro, nem o terceiro dessa trilogia. Se você quer realmente amar esse filme basta entrar de cabeça naquele estranho momento em que duas pessoas se reencontram em Paris (sempre Paris) para conversar sobre um amor que poderia ser, mas não foi. Pelo menos não na “vida real”, porque para um escritor sempre há oportunidade de realizar suas vontades quando se conta uma história, não é verdade? O filme é todo perfeito. Os diálogos de mais de 20 minutos sem nenhum corte são ao mesmo tempo leves e cheios de pesar. E o final simplesmente perfeito torna esse filme dentre todos que assisti o derradeiro. Aquele que me fez ter a certeza que eu precisava fazer isso para viver ou então nunca existiria de verdade.

Assim termino essa viagem pela minha ”Alma Literária” e espero que vocês passem algum tempo assistindo essas preciosidades que tanto me explicaram quem eu era, quem eu sou e quem eu quero ser. Mais que uma pessoa que escreve, mais que alguém que publicou um livro, mas um contador de histórias.


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