Macabéa - a nordestina que vira apenas mais uma mulher sofrida no Rio de Janeiro

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Clarice Lispector foi sensacional ao criar uma personagem que não vive, apenas existe e longe de mim querer tirar esse mérito dela. Clarice escrevia com toda a sua alma para tocar a nossa e, de certo, que conseguia cumprir sua missão com maestria. Tanto que é humanamente impossível não nos emocionarmos com Macabéa; sentirmos suas dores (físicas, psicológicas e emocionais) num misto de repulsa por sua apatia e compaixão pela mulher sem vez e sem voz.

Numa leitura mais concentrada somos capazes até de sentir seu mal cheiro e bafo de café. Seu desleixo é algo que nos incomoda. A resposta a isso é instintiva: ninguém quer ser mais uma Macabéa, porém a vida real mostra que, apesar de já estarmos em pleno século XXI, muitas delas ainda existem e estão mais perto de nós do que ousamos sequer imaginar, não só entre os mais desfavorecidos, mas também perambulando pelas classes média e alta.

E é surreal como ficam estigmatizadas pela sociedade num discurso do tipo "Fazer o quê? A vida é assim mesmo. Normal, né?". NÃO. O nome disso é inversão de valores. O normal é que  essas mulheres não sejam agredidas e humilhadas, contudo, caso isso aconteça, que não se desculpem como Macabéa fazia, acreditando ser a culpada  por seu namorado Olímpio tratá-la daquela forma.

Então, partindo do princípio de que uma imagem vale mais que mil palavras, entretanto, sem em momento algum desmerecer Clarice por sua imortal A hora da estrela, mas sim visando um conflito e não um confronto, penso que nas atuais circunstâncias, um reforço positivo seria mais pertinente. Que nossas protagonistas não sejam narradas por vozes masculinas. Que elas libertem o grito preso em suas gargantas, podendo assim nos agraciar com sua versão dos fatos, encorajando, através de seus testemunhos, nossas mulheres reais a se libertarem também.

---SOBRE A ALCIMARE DALBONE---

Alcimare Dalbone nasceu em 18 de setembro de 1980, em Volta Redonda, RJ, onde ainda reside. Cursou Letras pela UGB, graduando-se em 2001. Atualmente leciona Português e Inglês para as turmas de ensino médio na rede estadual do Rio de Janeiro. Sua poesia Pontos e Partes foi publicada na antologia Trilha de Lótus pela Editora Andross, e foi indicada ao Prêmio Strix de melhor poesia. Pela Young Editorial, participou de Horror a Vapor, uma antologia de Halloween, com o conto Plataforma 90, e teve seu primeiro romance, A Pedra Lunar, relançado em setembro de 2016, na Bienal do Livro de São Paulo.

Contato: maredalbone@hotmail.com

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