#Entrevista - Fábio Mourajh autor de Decrépitos - Aqueles que herdaram a terra

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É realmente muito bom ver que a literatura nacional tem tomado fôlegos cada vezes maiores de uns anos para cá, principalmente no que diz respeito à Literatura Fantástica – leia-se aqui fantasia, terror, ficção cientifica e similares. Uma vasta gama de autores surge a cada ano, assim como novas editoras ávidas por suprir uma demanda cada vez maior do público que segue o trabalho dessa nova geração.

Tivemos a honra de bater um papo com um desses jovens escritores, promessas da literatura nacional, Fabio Mourajh que está lançando Decrépitos – Aqueles que herdaram a terra, primeiro romance de sua carreira saindo pela editora Chiado. Fabio nos falou sobre a experiência de lançar o primeiro livro, seus processos criativos, e claro, como foram suas experiências na Bienal do livro desse ano.

O resumo desse papo bacana você continua lendo aqui:

IndieOuSorte: Opa, Fábio. Tudo bem contigo, cara? Primeiramente, é um prazer imenso ter essa conversa com você, que tão bem representa essa nova leva de autores tão promissores que atualmente figuram nossa amada literatura nacional. Mas, vamos deixar os bolodorios e ir para a parte que interessa ao leitor. Conta ai, quando foi que você parou e disse pra si mesmo “quero ser escritor”?

Fábio Mourajh: Todo autor tem como primícias a descoberta única de perceber que de dentro de sua mente escorre algo do qual ele não tem controle. Eu costumo dizer que uma história não é criada pura e simplesmente por uma mente, mas sim encontra naquela mente uma maneira de escapar para o mundo. Não foi diferente comigo. A história de Decrépitos surgiu muito antes de mim. Ela aborda questões inerentes desde o primeiro homem. Fé, questionamento, paixão, ódio, loucura estão impregnados em nossa sociedade como uma tatuagem irremovível. Existe um momento em que um indivíduo não consegue mais fugir dessas histórias. 

Sendo sincero, nunca pensei em ser autor de uma obra, mas sinto que essas histórias que hoje conto, sempre estiveram comigo. Já na forma prática, eu sempre pensei em histórias. Pô-las no papel foi só uma consequência. Acho que não se foge dessas coisas, elas simplesmente vêm uma hora. Dessa maneira, eu acho que qualquer pessoa pode escrever. Essa é a arte mais democrática que existe. É necessário um talento natural para determinadas artes, mas para contar uma história nem mesmo alfabetizado um indivíduo precisa ser. Ele apenas tem que imaginar, e isso todos fazemos. Em prática, precisa-se apenas ser humano. 

IndieOuSorte : Aproveitando o hype do lançamento de Decrépitos, seu primeiro livro, fale um pouco para os leitores sobre essa obra e como foi o processo pra concebê-la.

Fábio Mourajh: Foi uma gestação de nove meses, kkkkkkkkkkkkkk. Cheia de emoção e descobertas. Não sou pai ainda, mas imagino que o processo em si tem suas semelhanças. Decrépitos surgiu em minha mente quando tive o meu primeiro questionamento sobre o absurdo da exclusão social. Quando criança acompanhei pelos telejornais o terrível acontecimento da chacina da candelária, e aquilo me marcou para sempre. Não sei o que acontece com cada pessoa, mas ver um morador de rua, uma pessoa como eu ou você se alimentar de lixo, não ter uma refeição minimamente descente, um lar ou mesmo direito a um banho é algo que me deixa abismado. Muitas vezes me senti inferior a outros, pois nossa sociedade impõe padrões muitas vezes inalcançáveis, mas nunca me senti indigno.  É desse questionamento que nasce o Decrépitos, o próprio nome faz parte desse exercício. Aquilo que não tem serventia, velho, inútil. 

Esse é um questionamento que eu me ponho a ter e quero lembrar as pessoas. Porque fazemos isso também com o idoso, com o deficiente e todas as outras minorias. Em 2010 estava passando por um momento de reavaliação da minha vida e quis de alguma maneira externar isso. Quando percebi escrevia por seis, sete... dez horas seguidas. No meio da história eu tinha uma rotina intensa de acordar para escrever, almoçar enquanto escrevia, dormir de exaustão para acordar e recomeçar todo o processo no dia seguinte.

IndieOuSorte : Cara, li seu livro e realmente curti muito ( Leia aqui nossa resenha). Notei que se trata de uma obra de que possui um fôlego próprio de originalidade, mas que também possui diversas referências encontradas em elementos da cultura pop. Uma das mais claras pra mim é a de Akira, do Katsuhiro ottomo. Isso procede, ou estou falando bobagem?

Fábio Mourajh: É bobagem kkkkkkkk. Brincadeira, tem sim! Akira é uma dessas obras que tocam em questões que me encantam desde sempre. Os conflitos da psique humana. O próprio uso da linguagem POP para abordar questões complexas me encanta em diversas obras. Me utilizei de algumas referências tanto no cinema quanto na música. O livro aborda bem a sensação que eu tinha de certo caos e abandono que o país vivia nos anos 90 e eu procurei nas referências dessa época essa atmosfera. E isso o leitor pode perceber na maioria dos capítulos do livro.  

IndieOuSorte : A repercussão do seu trabalho acabou te levando até a Chiado, uma editora que colocou seu livro à venda não só no Brasil como em Portugal e outros país de língua portuguesa. Fale um pouco da experiência de trabalhar com uma editora desse porte?

Fábio Mourajh: Minha Editora tem me dado muito suporte. Tive a sorte de aproveitar uma nova etapa dela em que o olhar da Chiado se voltou mais para o país. Essa foi a primeira bienal da Chiado no Brasil que estava com um stand lindo e com toda a equipe in loco incluindo o presidente Gonçalo Martins, fico sem medo de dizer que era um dos melhores. Eu tenho uma relação muito boa com a editora. Exijo pouco dela, procuro trabalhar duro em divulgação do livro e gerar conteúdo exclusivo no site e a Chiado me dá suporte sempre que possível.

 Ter meu livro publicado em outros países é uma satisfação enorme, mas o meu foco é o Brasil. Óbvio que logo que possível estarei viajando para divulgar o meu livro nos outros países, mas agora eu acredito que é o momento da literatura brasileira. Nunca se publicou e vendeu tanto livro aqui. A Bienal de SP foi um enorme sucesso e isso só me encheu ainda mais de vontade de divulgar a literatura nacional em todo país.

IndieOuSorte : Recentemente você esteve na Bienal do livro de São Paulo, divulgando e vendendo seu livro. Fala pra gente, como foi essa experiência, para um autor iniciante estar em um dos maiores eventos de literatura no país?

Fábio Mourajh: Cara, foi uma loucura. Não tenho como mensurar o quanto de feliz eu estava. Sabe aquelas criancinhas num parque de diversão? Eu não sabia para onde ir ou o que fazer. Cheguei no parque de eventos do Anhembi às 11:00 da manhã da segunda feira dia 29 de agosto e já estava super lotado. Minha sessão de autógrafos estava marcado para às 13:00 e eu fui conhecer o que podia até minha hora e fiquei encantado. Encontrei escritores que sou fã e alguns que por muito privilégio já conheciam e admiravam o meu trabalho. Pude conversar com diversos nomes consagrados e pessoas como o incrível Josué Matos da Pendragon que me deram muita atenção e me deixaram ainda mais feliz de estar ali. Minha sessão foi incrível, não esperava receber tanto carinho das pessoas e os livros esgotaram.

 O que posso dizer? Foi perfeita, né? Kkkkkk. Sei que muitas coisas deveriam ser feitas para tornar a relação dos autores e o público mais próxima e essa é uma questão que eu espero que melhore. Mas eu tenho a certeza que o cenário vai crescer. Ver o André Vianco como destaque do Stand da Aleph foi muito gratificante. Ele ralou muito e fez por merecer estar ali, e isso me deu a certeza de que se eu trabalhar duro e de maneira correta também terei meu espaço.

IndieOuSorte : Muito tem se falado, principalmente depois dessa última bienal, que a literatura de fantasia tem crescido muito como segmento no Brasil. Como representante desse movimento, qual sua opinião quanto a isso?

Fábio Mourajh: Acho que a literatura como um todo está crescendo. Os romances por exemplo fazem muito sucesso e já põem nomes de autores brasileiros como Paula Pimenta, Bruna Vieira e Thalita Rebolças como grandes estrelas. Na fantasia temos nomes consagrados como Eduardo Spohr, André Vianco, Raphael Draccon, Carolina Munhóz. Ainda posso citar outros grandes talentos como Dener B. Lopes (Cidades Mortas/Aissur), Mari Dalboni (A Pedra Lunar), Eduardo de Souza (Crônicas escritas feito um PUM) e Letícia Godoy (Deixe-me entrar) que já possuem uma enorme legião de fãs e que fizeram muito sucesso na Bienal. Acho que não tem mais como voltar atrás. Esse é um processo irreversível e a literatura finalmente ganhará seu lugar de direito na cultura nacional.

IndieOuSorte : Cara, sei que é feio perguntar essas coisas, mas a galera quer saber com certeza. É caro pra um autor colocar seu livro á venda em uma bienal?

Fábio Mourajh: Bom, não sei quanto às outras editoras, mas a Chiado não cobra nada quanto a isso. Agora, quanto a ter um stand na Bienal não é nada barato. Disso eu tenho certeza, também existem Bienais que cobram o metro quadrado do stand mais caro do que outras.

 IndieOuSorte : Como autor iniciante, e marinheiro de primeira viagem na bienal, o que mais te chamou a atenção assim que você colocou os pés lá?

Fábio Mourajh: Logo de início foi a alegria das pessoas por estarem ali. Isso foi contagiante. Muitos estudantes ainda com as fardas de suas escolas. Acho que algo que merece menção é que São Paulo parou para a Bienal. Só se falava disso num período em que as eleições já estavam no auge dos noticiários e na mesma semana do julgamento de impeachment da presidente. Havia ônibus exclusivos de vários pontos da cidade especialmente para o Anhembi e nas estações de metrô haviam cartazes por todo lado. Sem dúvidas isso foi emocionante. Ver toda aquela interação da cidade com a Bienal foi o que mais me comoveu assim que vi que o sucesso que ela era. 

IndieOuSorte : Um assunto bem polêmico no meio literário é o crescimento das chamadas editoras de publicação por demanda, aquelas que cobram para publicar o autor. Muitos dizem que é um verdadeiro tiro no pé e que pode transformar o sonho do novo escritor em pesadelo. Outros afirmam que, junto com plataformas de auto publicação como o KDP (Kindle Direct Publishing) da Amazon e Kobo essas editoras são sim uma boa alternativa para se começar e podem dar um bom retorno para o autor que souber utiliza-la. Qual sua opinião quanto a isso.

Fábio Mourajh: Vou ser curto e grosso sobre isso: Sem elas não existe literatura nacional contemporânea. 

IndieOuSorte : Conta para os nossos leitores um pouco de como se dá seu processo criativo.

Fábio Mourajh: Eu nunca me sento para escrever simplesmente. Em geral demoro dois dias para começar a escrever alguma coisa, preciso sempre desses dois dias de reflexão procurando a emoção que desejo expor. Durante esse tempo eu sempre releio as coisas que escrevo, assim percebo brechas, erros ou coisas que simplesmente quero mudar e automaticamente me envolvo completamente com a atmosfera daquilo novamente. Vejo muito escritores pedindo sempre para ser lidos, mas é muito importante se ler. Isso é algo muito sério. Vejo pessoas que muitas vezes se deslumbram com o ato de escrever e se esquecem do básico. Tendo a ter uma playlist que apronto previamente de acordo com o clima do que desejo pôr no computador e também costumo caminhar de um lado para o outro conversando comigo mesmo como se fosse um dos personagens do meu livro. Sim pareço um maluco! kkkkkkkkkkk

IndieOuSorte : Quais são suas maiores inspirações no meio literário e qual livro é aquele que você diz “Não, esse aqui sim é obra prima!”?

Fábio Mourajh: No meio literário eu sou fã de autores que procuraram deixar para a humanidade obras relevantes. Gosto sempre de destacar nomes como Ursula K. Le Guin, Stendhal, Alexandre Dumas, Clarice Lispector, Raquel de Queiroz, Érico Veríssimo, Bernard Cornwell, Ken Follet e o grande Shakespeare que hoje é a minha principal inspiração. Acho que minhas obras primas favoritas são O Conde de Monte Cristo de Alexandre Dumas e Hamlet de Shakespeare.

IndieOuSorte : O papo está bom, mas existe uma questão que não posso deixar de expor: e a continuação de Decrépitos, quando sai?

Fábio Mourajh: Segundo semestre de 2017. Gente, prometo que estou escrevendo kkkkkkkkkk

IndieOuSorte : Parece meio robótico perguntar isso, mas vamos lá. Quais seus planos para o futuro em relação a literatura.

Fábio Mourajh: Eu agora estou nesse processo de divulgação. É meio louco, mas só faz 2 meses que o livro foi lançado oficialmente e só agora chegou as livrarias então, é tudo muito novo e eu estou correndo atrás de percorrer o máximo de estados do país divulgando o meu trabalho. Tenho recebido muitos convites para eventos e palestras pelo Brasil e quero comparecer em todos que forem possíveis. A intenção é lançar um livro por ano.  Também procuro divulgar outros escritores, não acho que mereço o mundo, então procuro compartilhar tudo que posso com aqueles que estão vivendo esse sonho comigo. Também estou envolvido com projetos de outras mídias para o universo de Decrépitos como jogos e quem sabe coisas mais voltadas para o áudio visual. Atualmente estou recebendo muitas sondagens e propostas e tenho que analisar tudo para oferecer o melhor as pessoas.

IndieOuSorte : Pra finalizar, você tem alguma dica para quem está começando, e como você busca
alcançar esse sonho de ser publicado e levar suas histórias para pessoas em todo país?

Fábio Mourajh: Primeiramente eu digo que não é fácil. Não importa o qual bom você seja, nada vai cair no seu colo a menos que você conheça as pessoas certas. Procure investir em você e quando eu digo investir não falo só em dinheiro, estude. Procure ler sobre o assunto, vá a palestras, não tenha vergonha de perguntar a outros que já estão sendo publicados. O mercado não é fácil, livro é um produto como qualquer outro. O mercado não quer saber dos seus sentimentos ou do que a história do livro representa para sua vida. Você pode escrever um livro contando a história da sua mãe e de repente alguém dizer que a história do seu livro é uma droga. Respire fundo, siga em frente. Procure se cercar de pessoas que gostam de você e te apoiem, mas que sejam sinceras. Aceite as críticas. Nenhum autor é dono se sua obra e nunca, jamais será maior do que ela. Não se ache o melhor dos melhores e não desmereça o trabalho dos outros. Sim essas são as maiores cascas de banana que a vida vai te colocar. 

Vejo muito autores talentosos caindo a obscuridade por criarem confusão com quem não deviam. Se você criticar uma editora publicamente tenha consciência que nenhuma outra vai querer publicar você. Existe uma grande diferença entre ser artista e ser uma estrela e a segunda opção é sempre formada pelos que tem muitas pessoas para suportá-los e os insuportáveis. Sim... A auto publicação é uma opção muito válida, mas procure direitinho, pois existem editoras muito má intencionadas que cobram muito caro e prometem coisas que jamais irão cumprir. Acredite em si mesmo e qualquer coisa entre em contato comigo nas redes sociais, pois nunca me nego a ajudar alguém desde que essa pessoa sejam respeitosa obviamente.

Curtiu o bate papo? Ele não precisa terminar aqui. Você pode continuar conversando com o autor pelo facebook ou pelo twitter.

Se interessou pelo livro? Leia nossa resenha sobre Decréptos – Aqueles que herdaram a terra, e saiba mais sobre ele.

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